
A Câmara Municipal de Jaboatão dos Guararapes sediou o I Encontro Ampliado do Fórum dos Trabalhadores de Saúde Mental nesta quarta-feira (27). O evento reuniu profissionais, usuários e parlamentares no plenário da Casa Vidal de Negreiros. O objetivo do debate foi avaliar os 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica diante dos desafios contemporâneos da área. Essa mobilização buscou dar visibilidade ao subfinanciamento do setor e propor a expansão da rede assistencial do município. Diante das demandas apresentadas, as discussões centraram-se imediatamente na realidade orçamentária e no acolhimento humano dentro das unidades locais.
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A infraestrutura financeira e a divisão tripartite de responsabilidades públicas dominaram as discussões técnicas no plenário jaboatonense. A secretária municipal de Saúde, Zelma Pessoa, explicou que o Governo do Estado não entra com nenhum cofinanciamento e os repasses federais cobrem parcelas reduzidas. “No Caps infanto-juvenil Padre Roma, dos R$ 42.900 enviados pelo Ministério da Saúde, isso custeia apenas 25% mensalmente”, detalhou a gestora. Ela informou o aporte de R$ 2,79 milhões da gestão para reformas, estimando o custo real de cada equipamento em R$ 172 mil, o que exige responsabilidade orçamentária para a criação de novos serviços.
A necessidade de maior proteção e acolhimento aos profissionais da ponta repercutiu intensamente entre os legisladores e representantes de classe presentes. O vereador Henrique Metalúrgico, do Partido dos Trabalhadores (PT), sugeriu usar ferramentas de Gerenciamento de Risco Ocupacional no parlamento para minimizar as condições de desgaste laboral que atingem as redes pública e privada. Paralelamente, a representante do Sindicato dos Servidores Municipais do Jaboatão dos Guararapes (Sinsmujg), Michele Francisca, conclamou o direcionamento de emendas parlamentares para o setor, sinalizando o esgotamento das equipes. Em consonância, o vereador Marlos Costa, do Progressistas (PP), apontou fatores externos de adoecimento coletivo, sugerindo que o bloco de servidores organize pleitos orçamentários a partir de agosto.

As perspectivas técnicas e de movimentos sociais mapearam os desafios geográficos e operacionais enfrentados pela assistência em uma extensão territorial complexa. A militante do Núcleo Estadual de Luta Antimanicomial, Evelyn Araújo, expôs que o tamanho de Jaboatão penaliza o deslocamento de famílias periféricas e cobrou a reposição de quadros técnicos. “Criatividade nasce quando a gente tem recursos materiais no serviço para conseguir pensar em novas possibilidades”, argumentou a assistente social. Complementando o cenário, a psicóloga da equipe multiprofissional (eMulti 6.1), Brenna Cristiane, abordou a intersetorialidade necessária com a atenção primária, alertando que o psicólogo na atenção básica não deve servir como mero triador para encaminhamentos, sob o risco de sobrecarregar um lençol assistencial já sufocado.
O testemunho prático e a defesa de um modelo comunitário sem internações fundamentaram os debates sobre o déficit estrutural e os planos em andamento para o município. A usuária do sistema de Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Jeane Conceição dos Santos, enfatizou os avanços obtidos em sua trajetória pessoal e a dignidade reconquistada por meio do suporte recebido na moradia assistida e no Caps Solar. O especialista do contexto da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Jaboatão, Gustavo Henrique Cardoso de Lima, contextualizou que a Portaria 336 do Ministério da Saúde preconiza uma unidade para cada 200 mil habitantes, evidenciando que a cidade necessita de mais seis centros específicos. Ele ressaltou ainda que Jaboatão é um dos poucos municípios da Região Metropolitana que não dispõe de atendimento especializado de 24 horas para cobrir situações de crise durante a noite e os finais de semana.

Diante desse panorama técnico, o vereador Robinson Biro Biro, do Avante, ressaltou a natureza compartilhada dessa responsabilidade pública. A secretária Zelma Pessoa pontuou que a prefeitura está em negociações com as instâncias estadual e federal para buscar a viabilidade orçamentária que permita, futuramente, reabrir uma unidade em Cavaleiro e implantar um novo centro em Jaboatão Centro. O encerramento do encontro foi marcado por uma homenagem solene em formato de cordel à assistente social do Caps Solar, Isabel, carinhosamente chamada de Bel. Pelos seus 23 anos de dedicação na consolidação da rede psicossocial, antecedendo sua aposentadoria, a servidora foi aplaudida no plenário ao declarar que fazer política pública exige um trabalho de pé no chão.